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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

השואה (*)

An unusual team for a roller
Description: Small feather, Indian ink, cardboard, 52 x 69 cm, USA 1970-80.  Collections of the Auschwitz-Birkenau State Museum.
Author:
Jan Baraś-Komski

No sábado passado publiquei o artigo "Paris ocupada... segundo a perspectiva Nazi" que serve de ponte para o dia de hoje. Para quem ainda não sabe hoje comemora-se o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. 

Porque tive familiares envolvidos directamente nesta tragédia, sei que o que se passou é verdade e nada do que se possa fazer ou dizer apagará da memória colectiva de um povo esta carnificina. Por isso é que já nem me consigo indignar de estudos como este da autoria de Díetfrid Krause-Vilmar, Historiador e cientista político, Ph.D em ciência política e educação, professor titular da Universidade de Kassel, Alemanha. Esta descrição do indivíduo faz todo o sentido, não se vá pensar que estamos a lidar com um "grupozeco" de Neonazis de vão de escada. Não é o caso, e esse é o nosso maior problema...

Inicialmente pensei em colocar aqui fotografias chocantes, como esta, com o intuito de alertar para este horrível acontecimento e que muitos tentam branquear, com as teorias de revisionismo ou negacionismo. Mas penso que uma mensagem de esperança e tolerância será mais correcta, embora menos chocante. E quem melhor do que as próprias vítimas para enviar essa mensagem?  Não consigo imaginar o sofrimento atroz que muitos sofreram nas mãos tenebrosas dos Nazis, mas esta colecção de arte, criada pelos próprios prisioneiros do campo de concentração de Auschwitz, são um ponto de partida. 

Sobre este assunto aconselho a leitura deste excelente post do meu muito urbano e atento amigo Miguel Lima do Tomo I, ou este fantástico artigo do estrondoso blog  A Rua da Judiaria.

(*) Holocausto em Hebreu.


terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A minha melhor prenda de Natal

Quem me conhece sabe bem que ajudar quem precisa não é uma palavra vã para mim. Mas mesmo assim emociono-me sempre numa situação como esta: 

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Pausa para relaxar...

A TM chegou, finalmente. E com ela chegou a paz de espírito de que precisava. Now is time to relax :)




Aproveitem para descansar que eu farei o mesmo.

Um abraço de boas férias e Feliz Natal para todos!

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

" Preciso da tua ajuda!"

Agora que captei a tua atenção gostava que visses esta foto de Kevin Carter:


Já tenho a tua atenção? Ainda não?! Então clica aqui e depois volta cá.

Então agora podemos conversar um pouco? O que te peço é muito simples: Que dês. Sim, que dês algo de ti, não precisa de ser dinheiro. Podes dar uma ajuda nas instituições de caridade que se calhar estão próximas de ti e nem sabes. E se te inscrevesses na Bolsa de Voluntariado? Boa ideia não? Quem sabe não fazes por lá alguns amigos de verdade. Ah e também ouvi dizer que por lá pára gente jovem, boa e muito divertida... Aproveita.

Mas espera, não vás já embora. Tu que provavelmente és um geek podes ajudar enquanto dás um voltinha com essa tal de internet, não custa nada, basta instalar a extensão para o Google Chrome "Chrome for a Cause" e entre os dias 15 e 19 estarás a ajudar instituições de caridade. Assim mesmo, sem levantar o teu real cagueiro e já estás a ajudar.

Hei! Onde vais?! Espera lá que ainda não acabei, é só mais um minuto, ok? Lembras-te deste meu post em que falo da CAMFED? E que tal dar um saltinho lá e assinar a newsletter deles? O que ganhas com isso? Ganhas mais do que alguma vez poderias imaginar e as crianças ganham um ano inteiro de lápis para poderem escrever... 

Pronto já está. Assim de repente conseguiste tornar o mundo melhor e não te custou nada, pois não? e se tiveres mais ideias diz qualquer coisa. O Mundo agradece e a tua consciência também.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

DUX_XXI Playlist #1 - Before the begining

E que tal fazer uma playlist de algumas das músicas que aqui já coloquei? Foi esta a pergunta que deu origem a uma rubrica de carácter lúdico mas que, no momento, podem indicar o meu estado de espírito. Confesso que, com tantas coisas complicadas a acontecerem ao mesmo tempo, não é nada fácil manter o meu habitual bom humor. A distância da TM é algo que não está a ser nada fácil de superar. E ainda faltam 14 dias para o seu regresso (*) 


(*) Ou para a minha partida, definitiva, de Coimbra...

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A Bancada de Imprensa foi renovada...

Estes últimos dias de afastamento aqui do blog serviram para pensar um pouco no que aqui deveria fazer. As hipóteses eram várias, como referi neste post - já agora obrigado à malta que se manifestou a favor da continuidade deste espaço - mas confesso que, no meu íntimo, pensei que o final do blog tinha chegado. Já tinha um post de despedida todo catita e que iria dedicar aos meus recentes amigos virtuais, até tinha uma imagem bem apropriada para o momento...  
Mas há pequenos momentos, da vida de uma pessoa, que nos fazem repensar alguns objectivos e a forma como levamos a cabo algumas das nossas missões. E aquilo que era suposto ser um espaço de convívio de e sobre futebol entre 3 ou 4 pessoas acabará porr se tornar um espaço pessoal onde tentarei, sempre que me for possível,  divertir-me em escrever.   
Pelo caminho eu sei que vou ajudar quem me lê, porque inevitavelmente escreverei sobre assuntos do vosso interesse... Se aqui e ali surgirem posts escritos em Castelhano, Euskara, Francês ou Inglês não estranhem, será uma forma diferente de comunicar mas que certamente nos enriquecerá a todos. É aqui que anuncio uma "contratação": a TM escreverá também aqui no Blog, sempre que lhe seja possível e em princípio em Francês ou Euskara, que são as línguas que ela melhor domina na escrita.   
Este espaço é agora um repositório de experiências, minhas mas não só, e por essa razão a Bancada de Imprensa passou a chamar-se: BI de DUX_XXI Então, e assim sendo, o blog segue dentro de momentos, sem qualquer tipo de orientação e sem saber onde me levará a mim e a vocês. Assim mesmo, como eu gosto...

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Este blog tem uma crise existencial...

Pois é... Ao fim de 153 posts, contando com este, 2 meses e uma média de quase 3 posts diários, surgiu-me esta dúvida. O que fazer com este blog? Os 3 ou 4 leitores que me acompanham provavelmente sabem que este blog deveria ser escrito por 3 pessoas: eu, o Xavier, e o 6º Beatle. O Xavier, o verdadeiro mentor de um projecto, rapidamente foi obrigado a abdicar de aqui escrever por razões profissionais. O 6B nos últimos tempos só consegue pensar num assunto. Que envolve saias. E como mais altos valores se devem ter levantado, faz muito bem em aproveitar. Fiquei eu, que inicialmente estava até mais relutante, a tentar dar um rumo ao blog. 
     
Mas a verdade é que a ideia original, falar essencialmente sobre bola, na visão de um adepto da Briosa, um Portista e um Sportinguista - pelo caminho haveríamos de cooptar um Benfiquista - esvaiu-se. Por culpa minha, que não tenho pachorra para escrever somente de futebol, mas também pelo pântano que o mundo do futebol se tornou. E estou a falar do mundo dos blogs, porque o outro já todos sabemos que há anos que está mergulhado em esterco. É difícil argumentar seja com que adepto for, tal é o nível de cegueira e raiva que nós adeptos vemos o futebol. Não estou para isso. Eu estou-me a borrifar se a Briosa no jogo X jogou com o atleta Y a defesa-esquerdo, que é mais baixo do que o outro que joga habitualmente, e por isso Jorge Costa é um incompetente... A sério, eu cheguei a discutir a razoabilidade deste comentário com um adepto de um conhecido blog de apoio à Briosa. Mas não dá. O nível de intolerabilidade a que chegamos impede-nos de ver o essencial: o prazer de ver um simples jogo de futebol. E como ultimamente estas discussões estão a retirar-me o prazer de ver um jogo de futebol, e para isso já existe tanta coisa, não preciso de mais nada, decidi repensar este capítulo.  
     
O painel do blogger diz-me que em dois meses o blog obteve 12.000 visualizações de páginas, cerca de 220 por dia em média. Mas a verdade é que 4 posts foram responsáveis por 60% deste tráfego. Foram posts sobre futebol, mas com títulos polémicos e conteúdo cheio de lugares comuns. No entanto houveram posts que me deram imenso trabalho a escrever, cujo resultado final foi interessante, mas que passaram practicamente incógnitos. Eu sei que isto é o normal de um blog, e que fidelizar leitores não é fácil, mas eles são a razão da existência do mesmo. 
     
Por essa razão decidi colocar o futuro deste blog nas mãos de quem o visita: os leitores. Assim sendo coloco algumas opções de caminhos a seguir, mas aceito outras. Nos comentários coloquem a vossa opinião... , no próximo domingo volto para fazer um balanço.

a) Este blog deveria ser sobre futebol, como inicialmente pensado;

b) A Bancada de Imprensa deveria abordar uma grande variedade de temas, tendo em vista comentar e esclarecer quem visita o blog;

c) Gosto mais dos posts intimistas, esse é o caminho a seguir;

d) Gosto dos posts intimistas, mas deverias arranjar um outro blog para esse fim;

e) Confio no teu imenso bom gosto :);

f) Eh pá, mais vale apagar o blog...

NOTA: Pelo caminho conheci gente muito boa de várias cores clubísticas, não vou aqui enumerar porque vocês sabem bem quem são, apesar de aqui e ali discordar com os mesmos, conseguem falar de futebol com paixão mas com respeito pelo adversário - bom às vezes não :D mas isso também faz parte. A todos envio um forte abraço com um desejo que tudo corra bem. Até já...

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Refinada ironia...

...ou pura ignorância?

Quando li este artigo no expresso, da jornalista Inês Teutónio Pereira, inicialmente pensei que o mesmo estava a ser escrito de forma irónica. Interiormente aplaudi o texto, que nos remete para uma problemática que conheço muito bem e contra a qual já estive envolvido. No terreno. Em África. Aliás, é lá que se encontra o fundador deste blog, um grande amigo, que continua numa luta intensa contra esta e muitas outras doenças.
Não sei o que leva uma pessoa inteligente e lúcida, como parece ser o caso, a escrever isto: "A Igreja Católica sabe disto melhor que ninguém: é única instituição que verdadeiramente sabe do que fala porque trabalha no terreno, conhece os casos, as pessoas, as aldeias, as cidades, a miséria, os costumes e as crenças."

Naturalmente isto é uma falsidade que me indigna. A mim e a muitos outros médicos e profissionais de saúde e muitos anónimos também, que tiveram a honra de estar ao serviço de uma causa. No local, onde tudo se passa. E o que eu vi muitas vezes? Eu conto.
 
CAMFED: "Educate girls in África"
Muitas das vezes o que lá vi não foi nada tão bonito como a imagem, confesso. Nem outra coisa poderia esperar. Entrar numa casa feita de colmo e barro, e sabe-se lá mais o quê, onde os dejectos dos animais se confundem com os das pessoas, as moscas se amontoam em redor das feridas, o cheiro nauseabundo que me faz recuar e pensar duas vezes se vou mesmo ali entrar... O olhar moribundo de uma menina que não teria mais de 13/14 anos. A quase inutilidade da nossa presença porque o pouco conforto proporcionado pelos mais básicos cuidados prestados seria pouco. Muito pouco. Mesmo assim teria de ser feito, por uma questão de humanidade, brio profissional, causa - seja lá o que queiram chamar - mas principalmente porque aquela pessoa estava a sofrer. E muito. Desumanamente. 

Enquanto uns e outros se desdobravam em esforços, para que o máximo de pessoas possíveis tivessem a assistência necessária e imediata, outros montavam palanque no centro da aldeia e papagueavam maldições bíblicas para quem não seguisse a Lei do Senhor. Uns verdadeiros asnos. Não quero criara qualquer tipo de polémica com a Igreja Católica e os seus fiéis, aliás no terreno chegamos a concertar esforços muito produtivos com algumas organizações católicas que sabem muito bem o que fazer. No problem. Não consigo é conceber que num cenário de crise, de devastação física, e também psicológica e moral, obviamente, a abordagem ao problema se cinja a uma crítica injusta, provavelmente vinda de alguém sem qualquer tipo de experiência do que realmente se passa. 

Cara Inês, acha mesmo que nós só distribuímos preservativos? Do alto da sua sabedoria consegue mesmo idealizar um cenário como descrito anteriormente, em que um médico não tente explicar os motivos do uso do preservativo? E acha que não ensinamos os cuidados básicos de saúde e higiene aos nossos pacientes? E acha que eles não o compreendem? Olhe que iria ter uma grande surpresa... Já no início do milénio, quando tive a honra e o privilégio de contribuir para a a causa, ajudar os mais necessitados, se falava que era necessário educar as pessoas antes de lhe ser administrado um paliativo. Gostava que desse, ou quem comunga da sua opinião, uma vista de olhos no que se tem feito nesse capítulo e depois me diga, sem se rir que "distribuir preservativos é o mesmo que tratar com água uma gangrena" 

É um ultraje ouvir, ou ver escrito no caso, que a Igreja Católica é a "única instituição que verdadeiramente sabe do que fala porque trabalha no terreno". E digo-lhe mais, com os recursos económicos que a Igreja dispõem poderia, e deveria, fazer muito mais. Mas continuamos todos a ver uma inusitada incapacidade de a igreja Católica lidar com a sexualidade, como referido num post sobre um artigo da Time Magazine. 

Não conheço a Inês Teutónio Pereira, nem nada me move contra ou a favor da dita senhora. Fiz uma breve pesquisa e encontrei o seu Facebook, e o seu blog. Cá fica a publicidade. Detive-me neste post e pensei "Ah ok, está percebido..."

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O dia em que me confundiram com um Black Block...

e quase me tornei num...
Coimbra B, 06:35h. Com ar sonolento arrasto-me até à bilheteira para comprar um bilhete para o Alpha. Destino: Lisboa - Oriente, por favor. Digo com o meu ar mais natural possível para aquela hora da manhã - estou habituado a acordar muito cedo, mas por alguma razão não tinha conseguido dormir como é habitual, penso para mim que é somente o nervosismo por ir ter com a TM. Sabe que em Lisboa o trânsito está condicionado, não sabe? - diz-me uma voz mecânica, quase imperceptível, do outro lado de um vidro baço. Sim eu sei, não se preocupe tenho tudo pensado, respondo com uma transcendente segurança.
O olhar, de cima abaixo, do diligente funcionário fuzila-me rapidamente como quem diz, só te estou a tentar ajudar! Compreendo, mas ninguém, mais do que eu, queria estar em Lisboa neste dia. A TM estará ausente, na Big Apple, até vésperas de Natal e depois de quase uma semana de afastamento de forma alguma poderia falhar a sua partida. Tinha precisamente 24h para estar com ela, neste momento era o máximo que poderíamos conseguir. Apesar de todos os condicionalismos que eu sabia existirem, devido à cimeira da NATO, não estava preocupado com esse assunto. Por momentos penso como é que estes tipos, num momento destes organizam um evento desta magnitude? Balbucio para mim umas respostas rápidas, organizada já há dois anos, os países pagam as suas próprias despesas... mas rapidamente afasto estes pensamentos. Hoje não é dia de questões políticas, por muito importantes que elas sejam...

Ainda meio embrulhado com o sono e os meus pensamentos avisto o comboio. Num ápice entro e escolho um lugar. O lugar que eu quero, eu sou assim, gosto de ser eu a escolher o meu caminho. Ligo o meu Mac para ouvir música, preciso descontrair, sinto-me agitado. Sem qualquer critério abro uma playlist. Uma das primeiras, Ane Brun? Sim pode ser. I need to relax!

A escolha não se revela a mais acertada. Faz-me lembrar velhas discussões... ficar em Portugal ou partir?
Is it calling?
It´s your choice. She said
Take or let go
Is it calling?
Não consigo evitar: and yet, i still don´t have an answer, how can it be?  

Vim para Coimbra no início dos anos 90' e nunca mais daqui consegui sair... Sinto-me assaltado por velhas dúvidas e as certezas de sempre. A TM sempre me acompanhou nas minhas aventuras, mas ultimamente as coisas tornaram-se diferentes. Com o avançar da idade, e já na casa dos 30, alguns projectos de vida começam a fazer menos sentido. É esse o grito de desespero que assalta as mulheres nesta idade e que eu vejo reflectido no olhar meigo da TM. Are you ready for love, perguntou-me antes de partir para Lisboa, para estar uns dias com uma velha amiga... Yes, baby. Yes! Sem qualquer reserva. Mas como fazê-lo acontecer? 

Conheço a TM desde sempre. Ela, 5 meses mais velha, sempre foi a minha inspiração. Namoramos desde sempre, é o que os nossos pais dizem. Nunca tivemos outras pessoas, mas mesmo assim sempre nos demos incrivelmente bem. Foi nos braços dela que chorei a morte de uma das pessoas que me era mais querida e foi nos braços dela que festejei muitas das minhas conquistas. Com a TM aconteceu o mesmo,  on stormy days, you are the lighthouse  - disse-me uma vez na estação do metro de Atocha em Madrid, momentos antes do nosso período de maior afastamento. Foram 4 semanas no total, mas doeu como se fosse um vida inteira. Agora estaremos afastados cerca de 1 mês. Eis um recorde que eu não queria bater. 

Sem me aperceber a viagem já ia a mais de meio, o Mac já não debitava música, e mesmo com os phones colocados conseguia ouvir ao longe uma agitação inusitada. Um grupo de pessoas faziam imenso barulho, pareciam divertir-se e certamente estavam de directa - um grupo tão grande de jovens aquela hora da manhã só podia estar de directa. Também já fui assim, pensei. Mas a vida agora é bem mais complicada. Alguns começam a aproximar-se e vão ocupando os lugares, indescriminadamente e sem olhar aos lugares marcados. São como eu, gosto de pessoas com atitude e pouco conformistas, pensei satisfeito.Uma miúda olha-me de alto a baixo e pergunta-me se vou para Lisboa à manifestação. Manifestação? Retribuo sem perceber onde ela quer chegar. Sim, manifestação anti-NATO. O olhar dela era vibrante e cheio de esperança. Aquele era um momento deveras importante, o entusiasmo era tal que se aproximou ainda mais. Nós somos pacifistas e vamos a Lisboa mostrar ao mundo que a NATO não devia de existir, a guerra não se combate com guerra! Com um gesto com a cabeça assenti. Sim tens toda a razão, mas o mundo está pejado de pessoas inconscientes que a qualquer momento e sob qualquer condição está disposta a tudo, por essa razão a NATO existe. Com um ar confuso questiona-me, e a guerra é a solução? As armas nada solucionam! Naturalmente que não, mas como explicar a alguém que é preciso outras pessoas com armas para nos protegerem das armas dos outros? Nem eu acredito nisso ultimamente...

Entretanto já outros se tinham juntado ao debate, como a querer justificar as suas atitudes e poses. Digo-lhes que estou do lado deles e que devem sempre lutar pelos seus ideais, obviamente, mas nem sempre as coisas são tão simples como parecem. Não consigo expôr melhor a ideia porque entram na carruagem 4 polícias que se sentam entre nós. O silêncio e o receio instala-se junto dos jovens idealistas e anarquistas! como muito bem frisou um deles. Volto para o meu Mac e escrevo este post. Não tenho tempo para mais e desligo o Mac, como quem diz até já. Estarei um mês sem ele, o computador da TM avariou e eu gentilmente emprestei o meu "menino". 

A viagem aproxima-se do fim e tinha passado quase sem me dar conta, tal fora a forma como sempre estive abstraído nos meus medos e receios... Estação do Oriente. Tinha chegado. Em breve veria a TM, esboço um sorriso. Tenho frio e  coloco o carapuço do quispo, ligo o ipod para ouvir umas músicas. Agora sim, estou bem... 

Quando coloco os olhos no horizonte vejo dois polícias a precipitarem-se na minha direcção. Por momentos penso que algo se passa nas minhas costas. No exacto momento que olho para trás sinto umas mãos, pesadas, nos meus ombros. Por acto instintivo afasto a pessoa sem me aperceber que o mesmo era... um dos polícias que vinha comigo no comboio! Apercebo-me que algo de estranho se passa, os outros 3 polícias, intimidados gritam qualquer coisa que não consigo ouvir. Retiro os phones e ouço, repetidamente, para o chão já! Entretanto o resto dos passageiros começa instintivamente a afastar-se, principalmente os miúdos anarquistas... Tiro a mochila das costas e coloco-a no chão, num acto de quem não tem nada a temer e vejo que o polícia que me tinha colocado as mãos nos ombros encontra-se mesmo ao meu lado, no chão a olhar para mim. Eu não fiz nada! Respondo ao mesmo tempo que ajudo o polícia no chão a levantar-se. Para o chão já, ouço novamente. Ok, isto é a sério, penso enquanto olho de frente para o polícia que entretanto se colocou em pé. Olha intimidado para mim, estou habituado a esse olhar, com 1,89m e 87kg sei que posso ser bastante persuasivo só com a expressão corporal. Era o caso. Com vários polícias a apontarem-me uma arma, deixo-me cair no chão. Num instante sinto várias pessoas a agarrarem-me. Mãos atrás das costas! Obedeço mas não sem sentir um receio que me magoem as mãos. Na minha profissão a precisão é tudo, e instintivamente sempre protegemos as mãos. Prendem-me as mãos com algo que parece uma corda de plástico e fico com os braços imobilizados.

Um deles levanta-me e olha-me nos olhos enquanto corajosamente me diz:
E então meu, diz-me lá para onde vais? Porque não paraste quando te chamaram?A voz autoritária era forçada.
Respondo, não ouvi porque tinha os phones nos ouvidos e foi sem querer que derrubei o seu colega. Tento-me desculpar, sabendo bem que se o tipo for mesquinho posso arranjar sérios problemas.
A tua identificação, onde está?
Na mochila respondo, juntamente com o resto das minhas coisas.

O líder deste pequeno grupo de polícias ordena aos outros que me segurem, e bem!, enquanto vê a minha mochila.
Então e para onde vais?
Para Sintra.
E vais lá fazer o quê?
Assuntos pessoais, respondo já meio agastado com a falta de educação demonstrada. Não me importo que me tratem por tu, mas forma como este tipo fazia era deveras provocatória.
E esses assuntos pessoais não estão relacionados com a cimeira da ONU?
Desculpe?! Com a cimeira?! E penso: da NATO idiota! É NATO!
Ouve lá meu, o que andas a tramar, sabemos bem que vinhas com um grupo de activistas não te faças de despercebido. Ou nos contas o que andam a tramar os vais direitinho para a esquadra!
Isso não é verdade. Venho de Coimbra sozinho e vou para Sintra, mas antes pensei fazer umas compras. Não sou activista nem vim com nenhum! 
No momento em que digo isto começo a pensar no que trazia vestido. Umas sapatilhas pretas, calças pretas e um quispo preto de capuz... preto. Nada de anormal para mim, mas nos dias que correm, principalmente estes dias, era algo que me tornava suspeito. Senti que o olhar diligente do funcionário que me vendeu o bilhete em Coimbra fazia sentido, e mesmo a forma como a miúda do comboio me falou. Achei estranho que tão rapidamente estivéssemos a falar de algo tão abrangente como a paz mundial. Afinal eram as roupas.


O tipo não parece minimamente convencido. Começa a revistar as minhas coisas, BI e passaporte. Deteve-se algo confuso. 
Penso: agora estou fodido.

Então o que temos aqui? Nacionalidade Espanhola, Holandesa e Portuguesa? Isto é muito confuso, e o seu nome... Nasceu em Espanha em Vitoria-Gasteiz? Onde fica? Explique-me lá isso.
É simples Sr. Tenente (eles gostam destas merdas... e era preciso ganhar a confiança do tipo), sou filho de pai espanhol e mãe holandesa. Que vieram para Portugal era eu muito novo.
Pois, estou a ver. E onde fica Vitoria-Gasteiz?
Hesitante respondo, no Norte de Espanha.
Ah, na Galiza portanto. Responde triunfante e perante admiração geral enquanto olhava para os seus amigos com ar sapiente.
Sim, sim, é isso retribuo. Não sem fazer um esforço para não esboçar um sorriso...
E o que faz na vida amigo?
Sou médico.
Médico? De quê? Onde?
Cirurgião, em Coimbra. Está aí o meu cartão... 
Muito bem (demoradamente)... Ainda com alguma desconfiança pergunta o que trago mais no saco.
Nada de especial, roupa e objectos pessoais.
Pois bem. E vai para Sintra não é? Ó Alberto, solte lá o Sr. Doutor e acompanhe-o à saída.
Respeitosamente o agente vem em minha direcção e diz-me, acompanhe-me se faz favor.
Sigo o "Alberto". Mas de repente ouve-se. Esqueceu-se da mochila! Mas cá está, com tudo o que lhe pertence, roupa e PC, por favor confirme.

Indignado agarro as alças da mochila e respondo: Isto não é um PC. É um Mac! Este vira-se para os amigos e encolhe os ombros...

Eu sigo o meu caminho. Tenho um encontro... 

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Good things happen on rainy days

Acordo cedo e cumpro a rotina diária, banho para acordar, pequeno almoço enquanto oiço as notícias na TV. Nada de relevante capta a minha atenção. Decido sair mais cedo para o trabalho, não sem antes me despedir com um sonolento 'até logo' e um beijo breve para não a acordar. Aquela hora da manhã, 07:15h, o movimento nas ruas de Coimbra é muito reduzido e não levo mais do que 10m a chegar ao Hospital. Os cumprimentos da praxe e um café no bar para abrir bem os olhos. Um vício a que não consigo resistir... 


Plano de trabalho: preparação para 2 operações. Inteiro-me da disposição dos pacientes e sinto que não vai ser fácil. Pessoas fragilizadas psicologicamente são sempre as que mais dificilmente recuperam. Ronda pelos restantes pacientes, nada de relevante e tudo a correr conforme o planeado. Óptimo, tenho duas horas de repouso. Ligo o Mac para dar uma vista de olhos na imprensa e nos blogs amigos, outra fraqueza... Uma troca de palavras mais acalorada com um indigente acerca do jogo SL Benfica vs FC Porto, um leitor escreve-me um email a pedir-me que retire a imagem porque é ofensiva. Remata o email com um enigmático 'Elimina, substituindo pela nova!'. Até substituía se me tivesses mandado 'a nova'. Continuo à espera...

Penso 'bolas, esta malta nem com um belo par de mamas fica contente'. Respondo educadamente a perguntar 'qual imagem?'. E rio-me baixinho, pela maldade cometida de não ter respeitado um pedido encarecido. 

Não à tempo para mais. Tenho de me concentrar ao máximo, e as idiotices escritas e pensadas durante a pausa não passam disso mesmo. Um passatempo idiota que me ajuda a descontrair e abstrair para uma tarde difícil e onde a pressão de não falhar é colossal. O primeiro paciente chega, imediatamente sinto que está num estado de muito nervosismo e aflitivo. Ordeno à enfermeira que acalme o paciente, o habitual nestes casos, mas eu próprio sinto-me assaz nervoso. Respiro fundo e tento tranquilizar-me, num ápice sinto uma adrenalina a percorrer o corpo para num momento seguinte tudo se normalizar, e sem delongas, o frenesim sentido no início desaparece. No final tudo corre bem. Como sempre já tenho um relatório preparado para o pós-operatório para que nada falhe.

A segunda operação é bem mais difícil. Uma criança com hemimegaloencefalia, sendo necessário remover uma parte do cérebro por intermédio de uma Hemisferectomia. Na preparação para a operação já tinha ficado comovido com uma conversa mantida a sós com o miúdo. Falei-lhe do dia em que, também eu, tinha sido operado e sabia muito bem o que ele estava a sentir. Nada que o beijo de uma jovem mãe, mesmo que com uma ansiedade latente, não resolva. Nos olhos do pai sinto um estridente pedido de ajuda silencioso. Penso para mim 'vamos conseguir!'. Começo, novamente, a sentir um arrepio a passar pelo corpo que me indica que está na hora, uma vez mais olho para o miúdo e sinto uma necessidade de acariciar o cabelo por forma a lhe transmitir que tudo estará, ao fim de umas horas resolvido. Dorme profundamente. Ao meu lado sinto a equipa nervosa, sempre que se opera uma criança o ambiente na sala é diferente. 


Peço a todos que se mantenham com o máximo de atenção possível - observação escusada - como que a alertar-me a mim mesmo. No CD toca esta música. Abstraio-me da pressão inicialmente sentida e numa espécie de 'mar de tranquilidade' começo... Por breves momentos penso nas implicações que este tipo de cirurgia pode acarretar e penso que não há margem de erro possível. Mas volto novamente a sentir-me de tal forma concentrado que parece que estou 'ausente'. Durante a cirurgia sinto-me cansado, tenho de parar. Olho para a equipa e vejo um grupo de, também eles, miúdos que me olham com intensidade: 'Então? Está quase, anda lá pá!' Em 5 minutos sinto o ânimo voltar e com indisfarçável orgulho entoo pela sala 'Que grande equipa nós somos!'. Sinto novamente adrenalina a percorrer-me as veias e penso que estamos quase, só mais um pouco...

E assim é... em breve tudo acaba e sinto a descompressão a invadir a sala. Tinha chegado ao fim e tudo correu optimamente. Exausto, peço imediatamente para falar com os pais. A notícia é dada de imediato, sem delongas porque o sofrimento é por demais evidente. O pai dá-me um abraço como há anos não sentia. A intensidade do mesmo reflectia o quanto estava agradecido. No olhar cândido da mãe revejo a felicidade que é poder ajudar. E ajudei!
   
Good things happen on rainy days...




PS: Na cama do miúdo deixo um pequeno cachecol da Académica e uma breve nota: 'És um campeão'
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