Não consigo evitar: and yet, i still don´t have an answer, how can it be?
Vim para Coimbra no início dos anos 90' e nunca mais daqui consegui sair... Sinto-me assaltado por velhas dúvidas e as certezas de sempre. A TM sempre me acompanhou nas minhas aventuras, mas ultimamente as coisas tornaram-se diferentes. Com o avançar da idade, e já na casa dos 30, alguns projectos de vida começam a fazer menos sentido. É esse o grito de desespero que assalta as mulheres nesta idade e que eu vejo reflectido no olhar meigo da TM. Are you ready for love, perguntou-me antes de partir para Lisboa, para estar uns dias com uma velha amiga... Yes, baby. Yes! Sem qualquer reserva. Mas como fazê-lo acontecer?
Conheço a TM desde sempre. Ela, 5 meses mais velha, sempre foi a minha inspiração. Namoramos desde sempre, é o que os nossos pais dizem. Nunca tivemos outras pessoas, mas mesmo assim sempre nos demos incrivelmente bem. Foi nos braços dela que chorei a morte de uma das pessoas que me era mais querida e foi nos braços dela que festejei muitas das minhas conquistas. Com a TM aconteceu o mesmo, on stormy days, you are the lighthouse - disse-me uma vez na estação do metro de Atocha em Madrid, momentos antes do nosso período de maior afastamento. Foram 4 semanas no total, mas doeu como se fosse um vida inteira. Agora estaremos afastados cerca de 1 mês. Eis um recorde que eu não queria bater.
Sem me aperceber a viagem já ia a mais de meio, o Mac já não debitava música, e mesmo com os phones colocados conseguia ouvir ao longe uma agitação inusitada. Um grupo de pessoas faziam imenso barulho, pareciam divertir-se e certamente estavam de directa - um grupo tão grande de jovens aquela hora da manhã só podia estar de directa. Também já fui assim, pensei. Mas a vida agora é bem mais complicada. Alguns começam a aproximar-se e vão ocupando os lugares, indescriminadamente e sem olhar aos lugares marcados. São como eu, gosto de pessoas com atitude e pouco conformistas, pensei satisfeito.Uma miúda olha-me de alto a baixo e pergunta-me se vou para Lisboa à manifestação. Manifestação? Retribuo sem perceber onde ela quer chegar. Sim, manifestação anti-NATO. O olhar dela era vibrante e cheio de esperança. Aquele era um momento deveras importante, o entusiasmo era tal que se aproximou ainda mais. Nós somos pacifistas e vamos a Lisboa mostrar ao mundo que a NATO não devia de existir, a guerra não se combate com guerra! Com um gesto com a cabeça assenti. Sim tens toda a razão, mas o mundo está pejado de pessoas inconscientes que a qualquer momento e sob qualquer condição está disposta a tudo, por essa razão a NATO existe. Com um ar confuso questiona-me, e a guerra é a solução? As armas nada solucionam! Naturalmente que não, mas como explicar a alguém que é preciso outras pessoas com armas para nos protegerem das armas dos outros? Nem eu acredito nisso ultimamente...
Entretanto já outros se tinham juntado ao debate, como a querer justificar as suas atitudes e poses. Digo-lhes que estou do lado deles e que devem sempre lutar pelos seus ideais, obviamente, mas nem sempre as coisas são tão simples como parecem. Não consigo expôr melhor a ideia porque entram na carruagem 4 polícias que se sentam entre nós. O silêncio e o receio instala-se junto dos jovens idealistas e anarquistas! como muito bem frisou um deles. Volto para o meu Mac e escrevo este post. Não tenho tempo para mais e desligo o Mac, como quem diz até já. Estarei um mês sem ele, o computador da TM avariou e eu gentilmente emprestei o meu "menino".
A viagem aproxima-se do fim e tinha passado quase sem me dar conta, tal fora a forma como sempre estive abstraído nos meus medos e receios... Estação do Oriente. Tinha chegado. Em breve veria a TM, esboço um sorriso. Tenho frio e coloco o carapuço do quispo, ligo o ipod para ouvir umas músicas. Agora sim, estou bem...
Quando coloco os olhos no horizonte vejo dois polícias a precipitarem-se na minha direcção. Por momentos penso que algo se passa nas minhas costas. No exacto momento que olho para trás sinto umas mãos, pesadas, nos meus ombros. Por acto instintivo afasto a pessoa sem me aperceber que o mesmo era... um dos polícias que vinha comigo no comboio! Apercebo-me que algo de estranho se passa, os outros 3 polícias, intimidados gritam qualquer coisa que não consigo ouvir. Retiro os phones e ouço, repetidamente, para o chão já! Entretanto o resto dos passageiros começa instintivamente a afastar-se, principalmente os miúdos anarquistas... Tiro a mochila das costas e coloco-a no chão, num acto de quem não tem nada a temer e vejo que o polícia que me tinha colocado as mãos nos ombros encontra-se mesmo ao meu lado, no chão a olhar para mim. Eu não fiz nada! Respondo ao mesmo tempo que ajudo o polícia no chão a levantar-se. Para o chão já, ouço novamente. Ok, isto é a sério, penso enquanto olho de frente para o polícia que entretanto se colocou em pé. Olha intimidado para mim, estou habituado a esse olhar, com 1,89m e 87kg sei que posso ser bastante persuasivo só com a expressão corporal. Era o caso. Com vários polícias a apontarem-me uma arma, deixo-me cair no chão. Num instante sinto várias pessoas a agarrarem-me. Mãos atrás das costas! Obedeço mas não sem sentir um receio que me magoem as mãos. Na minha profissão a precisão é tudo, e instintivamente sempre protegemos as mãos. Prendem-me as mãos com algo que parece uma corda de plástico e fico com os braços imobilizados.
Um deles levanta-me e olha-me nos olhos enquanto corajosamente me diz:
E então meu, diz-me lá para onde vais? Porque não paraste quando te chamaram?A voz autoritária era forçada.
Respondo, não ouvi porque tinha os phones nos ouvidos e foi sem querer que derrubei o seu colega. Tento-me desculpar, sabendo bem que se o tipo for mesquinho posso arranjar sérios problemas.
A tua identificação, onde está?
Na mochila respondo, juntamente com o resto das minhas coisas.
O líder deste pequeno grupo de polícias ordena aos outros que me segurem, e bem!, enquanto vê a minha mochila.
Então e para onde vais?
Para Sintra.
E vais lá fazer o quê?
Assuntos pessoais, respondo já meio agastado com a falta de educação demonstrada. Não me importo que me tratem por tu, mas forma como este tipo fazia era deveras provocatória.
E esses assuntos pessoais não estão relacionados com a cimeira da ONU?
Desculpe?! Com a cimeira?! E penso: da NATO idiota! É NATO!
Ouve lá meu, o que andas a tramar, sabemos bem que vinhas com um grupo de activistas não te faças de despercebido. Ou nos contas o que andam a tramar os vais direitinho para a esquadra!
Isso não é verdade. Venho de Coimbra sozinho e vou para Sintra, mas antes pensei fazer umas compras. Não sou activista nem vim com nenhum!
No momento em que digo isto começo a pensar no que trazia vestido. Umas sapatilhas pretas, calças pretas e um quispo preto de capuz... preto. Nada de anormal para mim, mas nos dias que correm, principalmente estes dias, era algo que me tornava suspeito. Senti que o olhar diligente do funcionário que me vendeu o bilhete em Coimbra fazia sentido, e mesmo a forma como a miúda do comboio me falou. Achei estranho que tão rapidamente estivéssemos a falar de algo tão abrangente como a paz mundial. Afinal eram as roupas.
O tipo não parece minimamente convencido. Começa a revistar as minhas coisas, BI e passaporte. Deteve-se algo confuso.
Penso: agora estou fodido.
Então o que temos aqui? Nacionalidade Espanhola, Holandesa e Portuguesa? Isto é muito confuso, e o seu nome... Nasceu em Espanha em Vitoria-Gasteiz? Onde fica? Explique-me lá isso.
É simples Sr. Tenente (eles gostam destas merdas... e era preciso ganhar a confiança do tipo), sou filho de pai espanhol e mãe holandesa. Que vieram para Portugal era eu muito novo.
Pois, estou a ver. E onde fica Vitoria-Gasteiz?
Hesitante respondo, no Norte de Espanha.
Ah, na Galiza portanto. Responde triunfante e perante admiração geral enquanto olhava para os seus amigos com ar sapiente.
Sim, sim, é isso retribuo. Não sem fazer um esforço para não esboçar um sorriso...
E o que faz na vida amigo?
Sou médico.
Médico? De quê? Onde?
Cirurgião, em Coimbra. Está aí o meu cartão...
Muito bem (demoradamente)... Ainda com alguma desconfiança pergunta o que trago mais no saco.
Nada de especial, roupa e objectos pessoais.
Pois bem. E vai para Sintra não é? Ó Alberto, solte lá o Sr. Doutor e acompanhe-o à saída.
Respeitosamente o agente vem em minha direcção e diz-me, acompanhe-me se faz favor.
Sigo o "Alberto". Mas de repente ouve-se. Esqueceu-se da mochila! Mas cá está, com tudo o que lhe pertence, roupa e PC, por favor confirme.
Indignado agarro as alças da mochila e respondo: Isto não é um PC. É um Mac! Este vira-se para os amigos e encolhe os ombros...
Eu sigo o meu caminho. Tenho um encontro...