Os trabalhadores da CP estão hoje em greve, uma vez mais, por causa dos cortes salariais. Confesso que, sempre que vejo uma greve, me solidarizo com os 'coitados' dos trabalhadores, que trabalham horas a fio para levar um parco rendimento para casa ao fim do mês. Nestes casos penso sempre em imagens como esta aqui de cima, em que se exige um esforço físico e mental titânico para se aguentar as tarefas que nos incumbem. Imagino as poucas centenas de euros que o trabalhador leva para casa, e com os olhos marejados de angústia pensa que «talvez no próximo mês seja melhor». Penso numa casa velha mas arrumada, com um santo à entrada a dar as boas vindas a quem vem por bem. Penso nas mãos enorme e calejadas do trabalho árduo, e do carácter e honra que as agruras da vida conferem. Num carro velho mas sempre afinado que é o orgulho da família ao Domingo, quando dão asas à alegria e cometem o pequeno excesso de ir até à praia de carro, passear os miúdos. Uma vida difícil mas honesta e honrada. O meu espírito ingénuo não me permite pensar num cenário diferente deste, afinal eles são simples trabalhadores que estão a fazer greve!
De acordo com a folha salarial da CP a que o SOL teve acesso, um inspector-chefe de tracção recebe 52,3 mil euros, há maquinistas com salários superiores a 40 mil euros e operadores de revisão e venda com remunerações que ultrapassam os 30 mil euros por ano.
«Só por se apresentar ao trabalho, cada maquinista recebe mais de seis euros por dia, devido ao subsídio de assiduidade».
«O tempo médio de escala dos maquinistas é de oito horas por dia, num total de 40 horas semanais. Mas, em média, o tempo de condução está entre as três e as quatro horas diárias»
Isto não é gralha, há tipos que só
trabalham 3 a 4 horas por dia e recebem todo aquele dinheiro. Eu não sou economista, mas proponho aqui fazer uma breve comparação de números. Quem me lê habitualmente sabe quem eu sou e
qual a minha profissão. Vamos começar por aí. Não me chateia nada ver que alguém ganha mais do que eu, não! Aliás, sonho com o dia em que muitos dos meus pacientes ganhem tanto ou mais do que eu, que Deus sabe que bem precisam. O que me chateia não é ter de trabalhar 6 dias por semana, 8h por dia e às vezes ter de dormir no Hospital. Isso não me chateia, faz parte da profissão que eu escolhi por vocação e, diga-se a verdade, sou bem remunerado por isso. Sempre que leio ou oiço algum camarada de profissão a queixar-se desta vida, fico angustiado. Angustiado pela falta de sensibilidade de saber que se quase 3.000,00€ mensais não são suficientes para ter uma vida tranquila nesse capítulo, o problema então não está no dinheiro, está na pessoa.
É o caso destes senhores que trabalham na CP, que deviam era ter vergonha na cara e olhar para prejuízo colossal que a empresa acumula e para os cortes que toda a gente, eu disse TODA, deveria fazer.
E sim, podem já começar pelo meu ordenado se assim entenderem, desde que não se esqueçam de fazer o mesmo ao
deles. Alguém aqui acredita que existe outro rumo para sairmos desta crise que não passe pela contenção da despesa pública? A subida do IVA mesmo que
«seja somente em último caso» seria catastrófico para o tecido empresarial português, que se baseia em micro e pequenas empresas. Eu já perdi a conta aos pacientes que inevitavelmente me dizem:
«sabe Sr. Doutor, tudo começou quando a fábrica faliu, fui eu e a minha mulher, mais a minha sobrinha e o marido, para o desemprego. Com esta idade já não arranjamos trabalho e já sabe como é... as preocupações...» Sim eu sei o que é isso, acabei de ver a vida desta pessoa estampada no seu coração fraco e desamparado e sei bem o que nos espera.