terça-feira, 9 de novembro de 2010

Good things happen on rainy days

Acordo cedo e cumpro a rotina diária, banho para acordar, pequeno almoço enquanto oiço as notícias na TV. Nada de relevante capta a minha atenção. Decido sair mais cedo para o trabalho, não sem antes me despedir com um sonolento 'até logo' e um beijo breve para não a acordar. Aquela hora da manhã, 07:15h, o movimento nas ruas de Coimbra é muito reduzido e não levo mais do que 10m a chegar ao Hospital. Os cumprimentos da praxe e um café no bar para abrir bem os olhos. Um vício a que não consigo resistir... 


Plano de trabalho: preparação para 2 operações. Inteiro-me da disposição dos pacientes e sinto que não vai ser fácil. Pessoas fragilizadas psicologicamente são sempre as que mais dificilmente recuperam. Ronda pelos restantes pacientes, nada de relevante e tudo a correr conforme o planeado. Óptimo, tenho duas horas de repouso. Ligo o Mac para dar uma vista de olhos na imprensa e nos blogs amigos, outra fraqueza... Uma troca de palavras mais acalorada com um indigente acerca do jogo SL Benfica vs FC Porto, um leitor escreve-me um email a pedir-me que retire a imagem porque é ofensiva. Remata o email com um enigmático 'Elimina, substituindo pela nova!'. Até substituía se me tivesses mandado 'a nova'. Continuo à espera...

Penso 'bolas, esta malta nem com um belo par de mamas fica contente'. Respondo educadamente a perguntar 'qual imagem?'. E rio-me baixinho, pela maldade cometida de não ter respeitado um pedido encarecido. 

Não à tempo para mais. Tenho de me concentrar ao máximo, e as idiotices escritas e pensadas durante a pausa não passam disso mesmo. Um passatempo idiota que me ajuda a descontrair e abstrair para uma tarde difícil e onde a pressão de não falhar é colossal. O primeiro paciente chega, imediatamente sinto que está num estado de muito nervosismo e aflitivo. Ordeno à enfermeira que acalme o paciente, o habitual nestes casos, mas eu próprio sinto-me assaz nervoso. Respiro fundo e tento tranquilizar-me, num ápice sinto uma adrenalina a percorrer o corpo para num momento seguinte tudo se normalizar, e sem delongas, o frenesim sentido no início desaparece. No final tudo corre bem. Como sempre já tenho um relatório preparado para o pós-operatório para que nada falhe.

A segunda operação é bem mais difícil. Uma criança com hemimegaloencefalia, sendo necessário remover uma parte do cérebro por intermédio de uma Hemisferectomia. Na preparação para a operação já tinha ficado comovido com uma conversa mantida a sós com o miúdo. Falei-lhe do dia em que, também eu, tinha sido operado e sabia muito bem o que ele estava a sentir. Nada que o beijo de uma jovem mãe, mesmo que com uma ansiedade latente, não resolva. Nos olhos do pai sinto um estridente pedido de ajuda silencioso. Penso para mim 'vamos conseguir!'. Começo, novamente, a sentir um arrepio a passar pelo corpo que me indica que está na hora, uma vez mais olho para o miúdo e sinto uma necessidade de acariciar o cabelo por forma a lhe transmitir que tudo estará, ao fim de umas horas resolvido. Dorme profundamente. Ao meu lado sinto a equipa nervosa, sempre que se opera uma criança o ambiente na sala é diferente. 


Peço a todos que se mantenham com o máximo de atenção possível - observação escusada - como que a alertar-me a mim mesmo. No CD toca esta música. Abstraio-me da pressão inicialmente sentida e numa espécie de 'mar de tranquilidade' começo... Por breves momentos penso nas implicações que este tipo de cirurgia pode acarretar e penso que não há margem de erro possível. Mas volto novamente a sentir-me de tal forma concentrado que parece que estou 'ausente'. Durante a cirurgia sinto-me cansado, tenho de parar. Olho para a equipa e vejo um grupo de, também eles, miúdos que me olham com intensidade: 'Então? Está quase, anda lá pá!' Em 5 minutos sinto o ânimo voltar e com indisfarçável orgulho entoo pela sala 'Que grande equipa nós somos!'. Sinto novamente adrenalina a percorrer-me as veias e penso que estamos quase, só mais um pouco...

E assim é... em breve tudo acaba e sinto a descompressão a invadir a sala. Tinha chegado ao fim e tudo correu optimamente. Exausto, peço imediatamente para falar com os pais. A notícia é dada de imediato, sem delongas porque o sofrimento é por demais evidente. O pai dá-me um abraço como há anos não sentia. A intensidade do mesmo reflectia o quanto estava agradecido. No olhar cândido da mãe revejo a felicidade que é poder ajudar. E ajudei!
   
Good things happen on rainy days...




PS: Na cama do miúdo deixo um pequeno cachecol da Académica e uma breve nota: 'És um campeão'

8 comentários:

  1. escrever seja o que for sobre o que viveste será sempre redundante (porque desnecessário).

    abraço e saudações PENTAcampeãs!

    Tomo I

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  2. @Miguel. Escrevi este artigo porque:

    I) Estava feliz e queria partilhar esse sentimento, isto com o tempo a malta habitua-se, dizem-me. Mas eu espero que isso nunca me aconteça.

    II) Também foi uma forma de apresentação, dar um rosto e um sentimento ao alter ego "DUX_XXI". Que tem muito para contar.

    III) Marca, provavelmente, o fim de um ciclo em que o tema foi quase em exclusivo o futebol. Não consigo encontrar motivos para escrever diariamente sobre futebol. Mas sobre outros assuntos certamente não me faltará inspiração.

    IV) O objectivo do blog é servir de escape a uma vida de pressão, como tal, o assunto deste post dificilmente será novamente abordado.

    Miguel, obrigado por apareceres por cá - quanto mais não seja para teres uma visão diferente sobre o futebol e não só - e continua o bom blog que tu tens.
    Recomendo a todos os meus leitores (sim estou a a falar para vocês 3 ou 4 que por cá aparecem!) fazerem uma vista ao Tomo I: http://miguel-lima.com/

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  3. @ Dux

    ao reler o meu comentário penso que percebeste mal o alcance das minhas palavras, que ficaram muito incompletas e o seu sentido saiu deturpado.

    o que quis dizer foi que, depois de um post tão intenso, tudo o que eu pudesse escrever num comentário seria sempre redundante (porque desnecessário).

    desculpa se te provoquei algum sentimento contrário. acredita que foi sem intenção.
    [quem me manda a mim escrever pela manhã... não funciono, ponto final. ;) ]

    ps: obrigado pela publicidade. espero ser merecedor de mais visitas tuas ;)

    abraço

    Tomo I

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  4. Assim vale a pena viver, os dias são sempre emocionantes?

    LC

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  5. @Miguel. De facto o teu comentário estava assim... truncado (como a crónica do Zé Diogo Quintela na Bola!!!), devido ao sono, não é? Olha deixa lá que eu sofro do mesmo mal!!! Mas sabendo que és um tipo correcto não levei a mal, não te preocupes.

    Eu espero que tb apareças por cá, vou fazer por isso. Lá no Tomo I já sabes como é - sou leitor assíduo. E gostei especialmente dos cartoons do 'rescaldo da jornada' :)

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  6. @aperadosapinto. Obrigado pelo elogio pá! Volta sempre e dá aí uma vista de olhos nos restantes artigos, acho que vais gostar de alguns, já de outros talvez não... :) Mas sempre na boa, ok?

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  7. @Anónimo LC. Vale sempre a pena viver. Ninguém é mais ou menos importante. Seja o que for que se faça na vida interessa é que se faça com o máximo de profissionalismo e dignidade que esteja ao nosso alcance.
    Respondendo à tua pergunta, os dias não são sempre assim. Depende da escala, há dias mais dedicados a relatórios (uma seca, mas indispensáveis) e outros como o de ontem. Mas não dá para ser sempre como ontem, ninguém aguenta um trabalho tão minucioso durante 7/8 horas seguidas. Tem de haver equilíbrio, já para não falar na preparação pré-operatória que é indispensável fazer.

    Cumprimentos e aparece sempre!

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