segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O dia em que me confundiram com um Black Block...

e quase me tornei num...
Coimbra B, 06:35h. Com ar sonolento arrasto-me até à bilheteira para comprar um bilhete para o Alpha. Destino: Lisboa - Oriente, por favor. Digo com o meu ar mais natural possível para aquela hora da manhã - estou habituado a acordar muito cedo, mas por alguma razão não tinha conseguido dormir como é habitual, penso para mim que é somente o nervosismo por ir ter com a TM. Sabe que em Lisboa o trânsito está condicionado, não sabe? - diz-me uma voz mecânica, quase imperceptível, do outro lado de um vidro baço. Sim eu sei, não se preocupe tenho tudo pensado, respondo com uma transcendente segurança.
O olhar, de cima abaixo, do diligente funcionário fuzila-me rapidamente como quem diz, só te estou a tentar ajudar! Compreendo, mas ninguém, mais do que eu, queria estar em Lisboa neste dia. A TM estará ausente, na Big Apple, até vésperas de Natal e depois de quase uma semana de afastamento de forma alguma poderia falhar a sua partida. Tinha precisamente 24h para estar com ela, neste momento era o máximo que poderíamos conseguir. Apesar de todos os condicionalismos que eu sabia existirem, devido à cimeira da NATO, não estava preocupado com esse assunto. Por momentos penso como é que estes tipos, num momento destes organizam um evento desta magnitude? Balbucio para mim umas respostas rápidas, organizada já há dois anos, os países pagam as suas próprias despesas... mas rapidamente afasto estes pensamentos. Hoje não é dia de questões políticas, por muito importantes que elas sejam...

Ainda meio embrulhado com o sono e os meus pensamentos avisto o comboio. Num ápice entro e escolho um lugar. O lugar que eu quero, eu sou assim, gosto de ser eu a escolher o meu caminho. Ligo o meu Mac para ouvir música, preciso descontrair, sinto-me agitado. Sem qualquer critério abro uma playlist. Uma das primeiras, Ane Brun? Sim pode ser. I need to relax!

A escolha não se revela a mais acertada. Faz-me lembrar velhas discussões... ficar em Portugal ou partir?
Is it calling?
It´s your choice. She said
Take or let go
Is it calling?
Não consigo evitar: and yet, i still don´t have an answer, how can it be?  

Vim para Coimbra no início dos anos 90' e nunca mais daqui consegui sair... Sinto-me assaltado por velhas dúvidas e as certezas de sempre. A TM sempre me acompanhou nas minhas aventuras, mas ultimamente as coisas tornaram-se diferentes. Com o avançar da idade, e já na casa dos 30, alguns projectos de vida começam a fazer menos sentido. É esse o grito de desespero que assalta as mulheres nesta idade e que eu vejo reflectido no olhar meigo da TM. Are you ready for love, perguntou-me antes de partir para Lisboa, para estar uns dias com uma velha amiga... Yes, baby. Yes! Sem qualquer reserva. Mas como fazê-lo acontecer? 

Conheço a TM desde sempre. Ela, 5 meses mais velha, sempre foi a minha inspiração. Namoramos desde sempre, é o que os nossos pais dizem. Nunca tivemos outras pessoas, mas mesmo assim sempre nos demos incrivelmente bem. Foi nos braços dela que chorei a morte de uma das pessoas que me era mais querida e foi nos braços dela que festejei muitas das minhas conquistas. Com a TM aconteceu o mesmo,  on stormy days, you are the lighthouse  - disse-me uma vez na estação do metro de Atocha em Madrid, momentos antes do nosso período de maior afastamento. Foram 4 semanas no total, mas doeu como se fosse um vida inteira. Agora estaremos afastados cerca de 1 mês. Eis um recorde que eu não queria bater. 

Sem me aperceber a viagem já ia a mais de meio, o Mac já não debitava música, e mesmo com os phones colocados conseguia ouvir ao longe uma agitação inusitada. Um grupo de pessoas faziam imenso barulho, pareciam divertir-se e certamente estavam de directa - um grupo tão grande de jovens aquela hora da manhã só podia estar de directa. Também já fui assim, pensei. Mas a vida agora é bem mais complicada. Alguns começam a aproximar-se e vão ocupando os lugares, indescriminadamente e sem olhar aos lugares marcados. São como eu, gosto de pessoas com atitude e pouco conformistas, pensei satisfeito.Uma miúda olha-me de alto a baixo e pergunta-me se vou para Lisboa à manifestação. Manifestação? Retribuo sem perceber onde ela quer chegar. Sim, manifestação anti-NATO. O olhar dela era vibrante e cheio de esperança. Aquele era um momento deveras importante, o entusiasmo era tal que se aproximou ainda mais. Nós somos pacifistas e vamos a Lisboa mostrar ao mundo que a NATO não devia de existir, a guerra não se combate com guerra! Com um gesto com a cabeça assenti. Sim tens toda a razão, mas o mundo está pejado de pessoas inconscientes que a qualquer momento e sob qualquer condição está disposta a tudo, por essa razão a NATO existe. Com um ar confuso questiona-me, e a guerra é a solução? As armas nada solucionam! Naturalmente que não, mas como explicar a alguém que é preciso outras pessoas com armas para nos protegerem das armas dos outros? Nem eu acredito nisso ultimamente...

Entretanto já outros se tinham juntado ao debate, como a querer justificar as suas atitudes e poses. Digo-lhes que estou do lado deles e que devem sempre lutar pelos seus ideais, obviamente, mas nem sempre as coisas são tão simples como parecem. Não consigo expôr melhor a ideia porque entram na carruagem 4 polícias que se sentam entre nós. O silêncio e o receio instala-se junto dos jovens idealistas e anarquistas! como muito bem frisou um deles. Volto para o meu Mac e escrevo este post. Não tenho tempo para mais e desligo o Mac, como quem diz até já. Estarei um mês sem ele, o computador da TM avariou e eu gentilmente emprestei o meu "menino". 

A viagem aproxima-se do fim e tinha passado quase sem me dar conta, tal fora a forma como sempre estive abstraído nos meus medos e receios... Estação do Oriente. Tinha chegado. Em breve veria a TM, esboço um sorriso. Tenho frio e  coloco o carapuço do quispo, ligo o ipod para ouvir umas músicas. Agora sim, estou bem... 

Quando coloco os olhos no horizonte vejo dois polícias a precipitarem-se na minha direcção. Por momentos penso que algo se passa nas minhas costas. No exacto momento que olho para trás sinto umas mãos, pesadas, nos meus ombros. Por acto instintivo afasto a pessoa sem me aperceber que o mesmo era... um dos polícias que vinha comigo no comboio! Apercebo-me que algo de estranho se passa, os outros 3 polícias, intimidados gritam qualquer coisa que não consigo ouvir. Retiro os phones e ouço, repetidamente, para o chão já! Entretanto o resto dos passageiros começa instintivamente a afastar-se, principalmente os miúdos anarquistas... Tiro a mochila das costas e coloco-a no chão, num acto de quem não tem nada a temer e vejo que o polícia que me tinha colocado as mãos nos ombros encontra-se mesmo ao meu lado, no chão a olhar para mim. Eu não fiz nada! Respondo ao mesmo tempo que ajudo o polícia no chão a levantar-se. Para o chão já, ouço novamente. Ok, isto é a sério, penso enquanto olho de frente para o polícia que entretanto se colocou em pé. Olha intimidado para mim, estou habituado a esse olhar, com 1,89m e 87kg sei que posso ser bastante persuasivo só com a expressão corporal. Era o caso. Com vários polícias a apontarem-me uma arma, deixo-me cair no chão. Num instante sinto várias pessoas a agarrarem-me. Mãos atrás das costas! Obedeço mas não sem sentir um receio que me magoem as mãos. Na minha profissão a precisão é tudo, e instintivamente sempre protegemos as mãos. Prendem-me as mãos com algo que parece uma corda de plástico e fico com os braços imobilizados.

Um deles levanta-me e olha-me nos olhos enquanto corajosamente me diz:
E então meu, diz-me lá para onde vais? Porque não paraste quando te chamaram?A voz autoritária era forçada.
Respondo, não ouvi porque tinha os phones nos ouvidos e foi sem querer que derrubei o seu colega. Tento-me desculpar, sabendo bem que se o tipo for mesquinho posso arranjar sérios problemas.
A tua identificação, onde está?
Na mochila respondo, juntamente com o resto das minhas coisas.

O líder deste pequeno grupo de polícias ordena aos outros que me segurem, e bem!, enquanto vê a minha mochila.
Então e para onde vais?
Para Sintra.
E vais lá fazer o quê?
Assuntos pessoais, respondo já meio agastado com a falta de educação demonstrada. Não me importo que me tratem por tu, mas forma como este tipo fazia era deveras provocatória.
E esses assuntos pessoais não estão relacionados com a cimeira da ONU?
Desculpe?! Com a cimeira?! E penso: da NATO idiota! É NATO!
Ouve lá meu, o que andas a tramar, sabemos bem que vinhas com um grupo de activistas não te faças de despercebido. Ou nos contas o que andam a tramar os vais direitinho para a esquadra!
Isso não é verdade. Venho de Coimbra sozinho e vou para Sintra, mas antes pensei fazer umas compras. Não sou activista nem vim com nenhum! 
No momento em que digo isto começo a pensar no que trazia vestido. Umas sapatilhas pretas, calças pretas e um quispo preto de capuz... preto. Nada de anormal para mim, mas nos dias que correm, principalmente estes dias, era algo que me tornava suspeito. Senti que o olhar diligente do funcionário que me vendeu o bilhete em Coimbra fazia sentido, e mesmo a forma como a miúda do comboio me falou. Achei estranho que tão rapidamente estivéssemos a falar de algo tão abrangente como a paz mundial. Afinal eram as roupas.


O tipo não parece minimamente convencido. Começa a revistar as minhas coisas, BI e passaporte. Deteve-se algo confuso. 
Penso: agora estou fodido.

Então o que temos aqui? Nacionalidade Espanhola, Holandesa e Portuguesa? Isto é muito confuso, e o seu nome... Nasceu em Espanha em Vitoria-Gasteiz? Onde fica? Explique-me lá isso.
É simples Sr. Tenente (eles gostam destas merdas... e era preciso ganhar a confiança do tipo), sou filho de pai espanhol e mãe holandesa. Que vieram para Portugal era eu muito novo.
Pois, estou a ver. E onde fica Vitoria-Gasteiz?
Hesitante respondo, no Norte de Espanha.
Ah, na Galiza portanto. Responde triunfante e perante admiração geral enquanto olhava para os seus amigos com ar sapiente.
Sim, sim, é isso retribuo. Não sem fazer um esforço para não esboçar um sorriso...
E o que faz na vida amigo?
Sou médico.
Médico? De quê? Onde?
Cirurgião, em Coimbra. Está aí o meu cartão... 
Muito bem (demoradamente)... Ainda com alguma desconfiança pergunta o que trago mais no saco.
Nada de especial, roupa e objectos pessoais.
Pois bem. E vai para Sintra não é? Ó Alberto, solte lá o Sr. Doutor e acompanhe-o à saída.
Respeitosamente o agente vem em minha direcção e diz-me, acompanhe-me se faz favor.
Sigo o "Alberto". Mas de repente ouve-se. Esqueceu-se da mochila! Mas cá está, com tudo o que lhe pertence, roupa e PC, por favor confirme.

Indignado agarro as alças da mochila e respondo: Isto não é um PC. É um Mac! Este vira-se para os amigos e encolhe os ombros...

Eu sigo o meu caminho. Tenho um encontro... 

3 comentários:

  1. meu caro,

    um enredo digno de um épico do Coppola ;)
    ainda bem que, no final, correu tudo pelo melhor.

    ps1: nada como, quando a situação assim o exige, puxar dos "galões". infelizmente, alguns agentes das nossas forças da autoridade (ou será austeridade?) só o compreendem dessa forma.

    ps2: a "TM" é linda de morrer (não no sentido literal) ;)

    ps3: quando um destes dias vieres à InBicta, informa. ofereço-te um cimbalino ;)

    saudações PENTAcampeãs!

    Tomo I

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  2. Ui.. Já se rezava depois de chegar a casa.

    Cumprimentos

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  3. Nunca cheguei a temer nada, porque estava tranquilo. Mas às vezes a intolerância pode ferir uma folha de registo criminal imaculada. Foi somente esse o meu medo.
    Quanto ao resto foi mais uma história (entre tantas!) que teimam em me acontecer!!!

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