sábado, 13 de novembro de 2010

Crónica de Miguel Sousa Tavares, no jornal A Bola do dia 09.11.2010

Esta crónica foi surripiada do blog Tomo I, neste post. Não deixem de fazer uma visita que tem por lá muito bons artigos. Quanto à crónica de Miguel Sousa Tavares, só lamento que o Gato Fedorento Ricardo Araújo Pereira não esteja interessado em continuar com as suas crónicas, porque será?

Esplendor na relva

1.

Meus senhores, todos os que gostam de Futebol: o que vocês viram no passado Domingo à noite, no Estádio do Dragão, é o melhor que o nosso futebol tem para apresentar. Só não foi um jogo inesquecível porque apenas uma equipa jogou: a outra foi sovada, cilindrada, reduzida ao estado de zombie.

Mas que bem que jogou o FC Porto, caramba!
Eu sei que para os nossos inimigos (que não adversários, que isso é coisa diferente e mais digna), estes 5-0 não vão servir de nada, nem ensinar coisa alguma, nem ajudá-los a meter a viola alguma no saco. Vai passar-se o mesmo que se passou sempre, apesar dos quinze campeonatos ganho no último quarto-de-século, dos dois títulos de Campeão Europeu e de Campeão do Mundo, da conquista da Taça UEFA e de tantas e tantas noites de glória azul-e-branca: assente a poeira deste jogo, disfarçada a vergonha e presumindo esquecida a evidência que todos viram, vão voltar ao disco rachado de há vinte e cinco anos. Este último canta assim: a viagem dos manos Calheiros ao Brasil; a «fruta» e o «chocolate»; o árbitro que foi beber um «cafezinho» antes do palpitante Beira-Mar vs. FC Porto de 2004 (tão palpitante que até pusemos as reservas a jogar); o «sistema», mais as «influências» e tudo o resto que já estamos carecas de ouvir.

Por um lado fico contente: é sinal de que o seu ódio vesgo é tamanho e que nunca irão aprender a lição, e de que iremos continuar a ganhar. Mas, por outro lado, fico preocupado porque sei que esta incapacidade dos nossos inimigos reconhecerem o mérito desportivo do FC Porto - mesmo depois de serem cabazados com 5-0 - é um decalque do País que hoje somos e das razões da sua falência: os medíocres odeiam a competição, a competitividade, a necessidade de se baterem contra adversários que não conseguem acompanhar. Ao invés, preferem os «direitos adquiridos» do tempo em que tudo lhes vinha "parar à mão" e sem concorrência. Então, vá de desqualificar, de caluniar, de tentar manchar o sucesso dos intrometidos.

2.

Jorge Jesus foi injusto quando quis reduzir tudo o que se viu no Clássico de Domingo à «noite inspirada do Hulk». Melhor do que esta tirada, só o site oficial do SL Benfica, esse jornalismo de referência, resumindo o massacre a uma questão de «falta de sorte».
Para começar, não foi só uma noite inspirada do Hulk (mais uma!): foi uma noite de sonho! Depois e por mais fantástica que tenha sido a exibição desse Incrível brasileiro descoberto na obscuridade do futebol japonês e revelado na grande escola de sucesso que é o FC Porto, a verdade é que ele não fez tudo sozinho. Inventou e assistiu Varela para o primeiro golo; construiu a jogada e cobrou, de penalti, o quarto; inventou sozinho o quinto. Mas, no intervalo de todo este festival, um novo Belluschi foi genial a assistir o Falcao para o segundo e terceiro golos; e o Falcao foi fabuloso a cobrar o segundo, de calcanhar, e o terceiro à matador que é. E naquele mesmo intervalo, a defesa do FC Porto foi absolutamente inultrapassável, com o Sapunaru a rubricar a melhor exibição que já lhe vi com a camisola azul-e-branca, o Álvaro Pereira sublime (como de costume), o Helton a fazer uma grande defesa na única oportunidade e remate à baliza por parte do SL Benfica (na sequência, está claro, de uma bola parada), o Guarín a fazer também o melhor jogo de sempre desde que está no Dragão.

Em suma: não houve um único jogador a destoar; não houve uma má exibição individual. Houve, acima de tudo, uma grande equipa, muitíssimo bem preparada.

3.

Parabéns!, André Villas-Boas! Muitos e muitos parabéns!
Antes, durante e depois do jogo, fez um trabalho simplesmente perfeito, impecável!
Antes, preparando o Sapunaru para que ele conseguisse secar por completo o Fábio Coentrão, na hipótese de este aparecer a jogar adiantado (como sucedeu na primeira parte) e preparando a equipa para jogar sempre próxima, concentradíssima na pressão alta e rapidíssima a explorar os espaços na rectaguarda do SL Benfica. E impecável ainda no elogio que fez ao mérito do SL Benfica, Campeão de 2010, sem esquecer o jeito que lhe deu o miserável episódio do "Túnel da Luz" - hoje e por razões bem à vista de todos, uma das mais vergonhosas páginas do Futebol Português.
Impecável ainda porque e ao contrário do que é habitual nos nossos treinadores em situações semelhantes, não tratou de se precaver com a desculpa dos «dois dias a menos de descanso» que a equipa do FC Porto teve em relação à do SL Benfica - antes dizendo e desde logo, que isso não iria servir de desculpa na eventualidade de correrem mal as coisas.
E impecável no final, pela forma comedida e cavalheiresca com que tratou uma vitória histórica [parabenizando a restante equipa técnica pela ajuda na conquista de tal feito].

Jorge Jesus tinha um dilema por todos conhecido: recuar Fábio Coentrão para defesa-esquerdo - de forma a tentar travar o furacão Hulk e assim diminuindo drasticamente o poder ofensivo da sua equipa - ou adiantá-lo e, prescindindo de César Peixoto a defesa (o que seria um suicídio, à partida), inventar uma outra solução para aquele lugar específico. Inventou David Luíz a defesa-esquerdo e… mais uma vez foi cilindrado! E este último não o foi só pelo Hulk, mas também pelo Belluschi: os três primeiros golos do FC Porto, naqueles estonteantes trinta minutos iniciais, aconteceram todos na zona à guarda de David Luíz. Pode ser que o rapaz, agora com uma nova cor de cabelo, se dê também a uma coloração de humildade, que bem precisa. Por estas razões, Jorge Jesus trocou o esquema na segunda parte, mas não foi melhor: Hulk fez o quarto e o quinto golos na cara de Coentrão. Acontece…

Agora e também com grande dose de injustiça, Jesus está transformado no saco de pancada de todos os benfiquistas. Mas o que já parece mais difícil de justificar é que tenha caído na tentação habitual dos treinadores portugueses quando se vêem confrontados com os mais difíceis jogos do Campeonato: mexer na equipa habitual para reforçar a defesa e diminuir o seu poder ofensivo. É que, num jogo em que precisava de ganhar, Jorge Jesus retirou o Saviola do 11, inventou um novo esquema defensivo e entrou no Estádio do Dragão mostrando a todos (e também aos seus jogadores) que estava com medo.
Já vi este filme vezes sem fim e no meu próprio clube e invariavelmente acaba mal.


[...]

6.

Só uma pequena nuvem a toldar um céu absolutamente azul: a presença dos cobardes lançadores de bolas de golfe e que se dizem "portistas".
É para isto que também servem os presidentes: Pinto da Costa tem de dizer, alto e bom som, a esses energúmenos que eles envergonham e prejudicam o Clube.
E para quê atacar um adversário com bolas de golfe quando o destroçámos com a bola de jogo?


in TAVARES, Miguel Sousa - NORTADA. A Bola. (09 Novembro 2010), pág. 46.

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