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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Santiago Segurola: O desconforto de José Mourinho

Mourinho CSKA Moscow 05042010
Santiago Segurola é um jornalista espanhol, nascido em Viscaya, 1957, é um importante jornalista no panorama ibérico tanto a nível desportivo como de interesse geral. Trabalhou no "El País" e actualmente na "Marca". Tem uma crónica no Diário de Notícias que merece ser divulgada. Este espanhol que me habituei a ler com admiração é admirador do Athletic de Bilbao, o clube da sua terra. Depois da retumbante vitória do Real Madrid este fim de semana (6-1 ao Deportivo da Corunha, com dois golos de Cristiano Ronaldo) atente-se à crónica de Segurola do passado dia 28 de setembro de 2010:
Um bom amigo madridista disse-me que teme os jogos da sua equipa, porque o melhor acontece na terceira parte: nas conferências de imprensa de Mourinho. Os adeptos aborrecem-se no Bernabéu, mas ouvem o treinador na rádio. Mourinho é o homem que melhor compreende o valor dos meios de comunicação para difundir as mensagens que lhe interessam. A última refere-se ao escasso rendimento nos remates. O Real Madrid disparou 105 vezes e só marcou seis golos em cinco jogos. É a sua maneira de justificar o decepcionante início de temporada da equipa. A insistência de Mourinho em assinalar as ocasiões de golo tem um questionável valor estatístico. A equipa remata muito, mas nem sempre nas melhores condições. Abundam os remates precipitados, desnecessários ou tácticos. Sim, às vezes parece que o Madrid prefere acabar as jogadas com um mau remate, para se ordenar melhor no capítulo defensivo. São truques do futebol actual que não ligam bem com o jogo. Pelos vistos agradam a Mourinho, que tira partido disso. Um dos problemas que Mourinho poderá encontrar é o escasso apreço do Real Madrid pela estatística. Pelo menos esta época. Por cada dado estatístico, o Barça avança com um melhor. Pellegrini foi despedido depois de conseguir um número recorde de pontos (96) e 102 golos, a segunda cifra mais elevada da sua história. O problema é que o Barça teve 99 pontos e ganhou a Liga. Ainda que o famoso terceiro tempo de Mourinho seja muito noticioso - com um evidente e bastante infantil interesse em utilizar o jornalismo como receptor dos seus jogos mentais -, os adeptos preocupam-se com outra coisa: o que se vê no relvado. Nesta perspectiva é curiosa a diferença de discurso entre Mourinho e Guardiola, o técnico do Barça. O treinador português destaca as oportunidades de golo; Guardiola, o jogo em si. Não se pode discutir a categoria de Mourinho como treinador. O seu currículo impressionante é sinónimo da sua categoria, mas em Espanha começam a descobrir-se-lhe vertentes que nunca se viram em Inglaterra, ou em Itália. No Chelsea, ocupou-se de uma equipa sem maiores exigências que os caprichos do magnata Abramovich. Excepto algum episódio isolado, o Chelsea nunca foi considerado um grande do futebol inglês. Com Mourinho e as petrolibras do empresário russo, a equipa viveu os seus melhores dias.
A Itália sempre viu o prazer estético como uma debilidade no futebol, por contraditório que parece num país que adora a sua beleza. Lá só importa a rentabilidade estatística. A aventura no Inter ajustou-se a esse princípio básico. Agora a Mourinho não se explica porque se lhe exigem que o Madrid jogue bem. A razão é simples: em Espanha importa, e muito, o bom futebol. Esta realidade, tão absurda noutros países, foi a que produziu equipas como o Real Madrid da Quinta del Buitre, o Barça de Cruyff e o impressionante Barça de Guardiola. A decantação natural desta cultura futebolística é a selecção espanhola. Na véspera da meia-final do Campeonato do Mundo, frente à Alemanha, ainda se discutia sobre a conveniência de jogar com um ou dois pivôs no meio campo. Soa a extravagância, mas é assim o futebol espanhol. Mourinho tem as qualidades de um camaleão. Adapta-se a qualquer circunstância. Agora terá de o fazer face às singulares exigências do Madrid e de La Liga. O homem sente-se desconfortável, por isso convém-lhe não confrontar uma cultura futebolística tão definida, ou incorrerá em grave equívoco. 

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Crónica de Santiago Segurola (02.11.2010)

As crónicas de Santiago Segurola são já um clássico do futebol da Península Ibérica. Desta vez o jornalista reporta-se a um fenómeno que se tem vindo a intensificar no futebol de nuestros hermanos, a falta de competitividade pelo título de campeão. Na verdade com um campeonato tão exigente como o espanhol temos vindo a assistir a um domínio alternado entre Real Madrid e Barcelona e as demais equipas não conseguem intrometer-se nessa disputa. O domínio avassalador destes clubes está almofadado pelo dinheiro que as transmissões televisivas lhes proporcionam em comparação com os adversários, Valência, At. Madird, At. Bilbao, Sevilha e Villareal. 

Não há competição que resista a dois clubes que conseguem sempre contratar alguns dos melhores jogadores do mundo e mesmo um Sevilla, que tem dado cartas na Europa, não se livra da humilhação de ser goleado em Camp Nou, sendo encarado como algo natural, acaba por ser demonstrativo que algo de errado se passa com a competitividade desta competição. O que se passa no futebol português é algo semelhante, o que me motivou a escrever este post, com o SL Benfica e o FC Porto a dominarem em toda a linha. 

Desde o momento em que o Sporting cometeu o harakiri de viver para dentro da sua academia e contratar somente jogadores de 2º plano, no melhor dos casos, e com isso se ter distanciado qualitativamente dos seus eternos rivais, que temos vindo a assistir a um fenómeno semelhante ao espanhol. Por essa razão coloquei estas duas questões no referido post:
Justifica-se então que o SL Benfica queira mais dinheiro das televisões?
Ou será que o valor pago pelas transmissões televisivas dos jogos de futebol devem ser idênticas para os 3 maiores clubes de Portugal?
E deixo aqui outra, estaremos também nós a caminhar para a destruição da competitividade do futebol nacional?

Liga espanhola está condenada à destruição:

A Liga espanhola está condenada a repetir-se. Cada temporada será a mesma que a anterior, com uma única diferença; o vencedor. Será o Barça - como nas últimas edições - ou o Real Madrid. É impossível pensarmos numa alternativa.

Os optimistas consideravam que este ano oferecia boas possibilidades ao Valência, Villarreal, Sevilha e Atlético de Madrid. Se não conseguissem ser campeões, pelo menos podiam ameaçar os dois colossos do futebol espanhol. A última jornada funcionou como um banho de realidade: os gigantes voltam a estar sós. Villarreal, Atlético de Madrid, e Valência empataram e o Sevilha até perdeu, humilhado em Camp Nou. Encaixou cinco golos.

O campeonato está submetido a um processo de destruição. O Real Madrid e o Barcelona recebem mais dinheiro de direitos televisivos que qualquer outro clube no mundo. Cada um cobra 120 milhões de euros pelo seu contrato com a empresa Mediapro. O terceiro clube no ranking é o Valência, com 44 milhões de euros. Segue-se o At. Madrid, com 42 milhões. Equipas como o Sevilha ou o Atlético de Bilbau - dois clubes de tradição em Espanha - recebem sensivelmente 20 milhões. E assim será até 2015. Cada temporada que passa agudiza mais as diferenças, que já são abissais. A competição está destruída, a maioria dos clubes encontra-se na bancarrota e os adeptos cada vez encontram menos motivos para sonharem com as suas equipas. O seu destino está traçado: a mediocridade.

A diferença também é escandalosa no que diz respeito às grandes potências do futebol europeu. A Juventus, o Inter de Milão e o AC Milan recebem, aproximadamente, 88 milhões de euros pelo contrato televisivo em Itália, que factura quase 50% mais que o mercado televisivo espanhol. Na Premier League, o sistema de distribuição concede 66 milhões de euros ao Manchester United. Na época passada, o clube que menos dinheiro recebeu foi o Middlesbrough; 40 milhões de euros, quase o mesmo valor que o Valência e o Atlético de Madrid tiveram direito.

Se, por outro lado, a Premier League e a Bundesliga se preocupam em manter uma fórmula equitativa que protege todos os clubes, a Liga espanhola distingue-se pelos enormes privilégios de dois clubes e a brutal diferença que os separa dos restantes. Resultado? Uma competição ferida de morte. Com o actual sistema, que seguramente se repetirá a partir de 2015 - último ano do actual contrato -, o futebol espanhol está condenado à destruição. A Liga espanhola não é uma competição real. É um lamentável simulacro.

Na época passada, o Barcelona obteve 99 dos 114 pontos que disputou. O Real Madrid conseguiu 96 e fez 102 golos. Perdeu a Liga porque foi derrotado nos dois jogos com o Barcelona. No fim de contas, a Liga resume-se ao duelo - primeiro em Camp Nou e depois no Bernabéu - entre as duas equipas. O restante tem, apenas, um valor ornamental. É comovente o esforço de equipas como o Hércules, recém-promovido à primeira divisão. Frente ao Real Madrid adiantou-se com um golo madrugador de Trezeguet. O sacrifício para manter a vantagem foi algo de dramático. O Real Madrid reagiu e marcou três golos na segunda parte. Ninguém pensou, por um momento que fosse, numa possível surpresa. É uma Liga sem nuances, empobrecida por um capitalismo selvagem que não atende os interesses do futebol em geral, apenas aos interesses muito particulares de dois clubes que não têm a mínima solidariedade.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Leões e Ratos

Palavras para quê, está aqui tudo explicado [lá e cá, também...] 

"Insólito: perdem o campeonato e estão contentes."  

"O Barça foi um leão, o Real Madrid, um rato." 


A realidade e a ficção são muitas vezes misturadas no futebol, mas convém atender aos factos para não nos distrairmos. No sábado disputou-se o primeiro dos quatro jogos que colocarão Real Madrid e Barcelona frente-a-frente num prazo de três semanas. O empate a um golo mantém a equipa catalã com uma vantagem de oito pontos, a seis jornadas do final da Liga. Após o encontro, no Santiago Bernabéu, ficou quase certa a vitória do Barcelona no campeonato. São os dados que ficaram do jogo, pura estatística, como a impressionante diferença de posse de bola entre as duas equipas (72% Barca, 28%, Real Madrid) e a desvantagem numérica da equipa de Mourinho, com a expulsão de Albiol, após a grande penalidade que cometeu sobre Villa.

O que aconteceu no Santiago Bernabéu deveria significar séria preocupação para o Real Madrid e seus adeptos. No entanto, por razões inexplicáveis, os fãs ficaram satisfeitos com o empate que ofereceu o título de campeão ao Barça. A maior parte dos madridistas e dos jornalistas considerou um êxito o que, de facto, foi uma decepção. É verdade que a equipa teve mérito em superar o afastamento de Albiol e chegar ao empate com uma demonstração do épico velho alento do Real. Tem sido sempre assim e assim continuará , sempre e sempre.

Para além do épico episódio, ajudou a entrada de Özil, na última meia hora. Colocar Özil no banco - uma das sensações da temporada e talvez o jogador mais admirado pelos adeptos - significa a mesma coisa que prescindir de Zidane no auge de sua carreira em Madrid e colocar no seu lugar um central. E isto é o que Mourinho fez, ao colocar Pepe no meio-campo retirando a titularidade a Özil. Noutros tempos, o Bernabéu teria explodido de raiva. Teria chamado o treinador de cobarde, acusando-o de trair a história do Real, apavorando-se ante o Barça. Mas algo mudou na psique colectiva dos madridistas, como ontem explicou o jornalista Roberto Palomar, na última página do diário Marca: "Insólito: perdem o campeonato e estão contentes."

Na conferência de imprensa, após o jogo, José Mourinho, reiterou o seu discurso cansado, novamente designando o árbitro responsável pelos problemas do Real. É um discurso de voo curto, que vende bem aos adeptos angustiados. Nem sequer incidiu sobre o mérito da sua equipa na meia hora final, até porque esse mérito se ficou a dever em grande parte ao erro do treinador no onze inicial. Sem Özil, o Real não deu dois passes seguidos. Faltou-lhe um grau mínimo de criatividade para surpreender o Barcelona. Foi uma concessão sem precedentes, que permitiu ao líder um jogo confortável . Como referi: 72% de posse de bola, uma terrível percentagem quando esta se verifica na equipa que melhor manobra o jogo no futebol mundial.

Através de Mourinho e do seu discurso foi criado falso discurso: o Real Madrid não pode jogar de igual para igual com o Barça. Falamos do clube com o maior orçamento do mundo, de uma equipa que tem recebido nas últimas temporadas jogadores que valem mais de 400 milhões de euros, que tem dois Bolas de Ouro, cinco campeões mundiais e abundante número de estrelas da Argentina, Alemanha e Brasil. Nunca na sua história, o Real teve melhor plantel, mas entrou num fatalismo inacreditável que leva a pensar que a única forma de se impor ao Barça é renunciar à história e comportar-se como uma equipa pequena.

Esta ideia de um Real diminuído reflecte a volta radical que sofreu o futebol espanhol. Guardiola disse há algum tempo, antes de se tornar treinador, que os jogadores do Barça saíam felizes quando empatavam no Santiago Bernabeu. "Empatámos no meu primeiro jogo em Madrid. Lembro-me de olhar para o rosto de Michel. Estava amargurado como uma fera ferida, com o resultado", comentou então o actual técnico do Barça. Vinte anos depois, os jogadores do Real e os adeptos celebraram como uma vitória um resultado que deu o campeonato ao seu grande rival. Assumem que esta é a melhor forma de enfrentar a final da Taça em Espanha e as meias-finais da Liga dos Campeões. E defendem esta perversão histórica com tal força, que consideram antimadridista quem se atreva a questionar essa imagem tão distante do que significou historicamente o Real. Até que aparece Alfredo Di Stéfano, o mito por excelência do Real Madrid, e que titulou assim o seu artigo semanal na Marca: "O Barça foi um leão, o Real Madrid, um rato." É esta a história.

Opinião de Santiago Segurola (link)

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Órfãos de Xavi

Como já tenho dito, é um prazer ler as crónicas de Santiago Segurola. Mais uma que pode ser lida no Diário de Noícias:

O pequeno corpo de Xavi contém todos os segredos do futebol. É um manual com botas, o tipo de jogador que transmite às suas equipas o ritmo adequado, os passes necessários e a capacidade para detectar as fraquezas dos adversários. Xavi funciona no meio-campo como um entomólogo. Analisa todos os detalhes - os grandes, os pequenos e os microscópicos - e depois toma decisões, quase sempre de forma favorável à sua equipa, quase todas letais para os adversários.

Os espanhóis recordam Xavi em todas as categorias internacionais. Nos seus primeiros anos, ganhou o Mundial juvenil de 1999 e a medalha de prata dos Jogos Olímpicos de Sydney. Sucedeu a um mito como Guardiola e instalou-se no Barcelona com 18 anos. Conquistou seis Ligas, duas Ligas dos Campeões, uma Taça do Mundo de clubes e o último Mundial. É o jogador mais respeitado e seguramente o melhor que o futebol espanhol produziu.

O palmarés de Xavi recorda-nos o seu peso em todos os lugares onde esteve. Ao redor deste centrocampista fenomenal quase sempre se formaram equipas brilhantes e ganhadoras. Equipas submetidas ao critério de um jogador obsessivo que demorou a ter o reconhecimento que hoje recebe. Com a perspectiva da história, Xavi é um génio indiscutível, o tipo de futebolista que aumenta exponencialmente o rendimento dos companheiros. Sem dúvida a sua carreira não tem sido fácil. Em alguns momentos consideraram-no o principal responsável pelos fracassos do Barça e da selecção.

Há um ano, o tablóide inglês Daily Mail publicou uma fotografia da cerimónia de entrega do prémio da FIFA para o melhor jogador do Mundo. Lá estavam Messi, Cristiano Ronaldo, Rooney, Fernando Torres e Xavi. "Os quatro melhores jogadores do Mundo e um tal Xavi", era o título do Daily Mail. O critério infame do jornal sensacionalista não impede que se pense que Xavi recebeu a consideração que merece. Com toda a segurança, foi mais apreciado por futebolistas e treinadores que por jornalistas e adeptos.

Xavi não é um jogador fácil de compreender. Não é rápido, não é forte e não é goleador, mas ninguém pensa mais rápido, nem é mais competitivo e ninguém encontra melhor os avançados que ele.

Num jogo normal passa a bola 90 vezes com 95% de precisão. Num bom ultrapassa os 100 passes, com 98% de certeza. Muitos são simples, previsíveis. Outros desestabilizam o sistema defensivo dos rivais. E alguns reinventam as partidas, como normalmente acontece no Santiago Bernabéu [estádio do Real Madrid].

A sua interpretação do jogo mudou a forma de ver o futebol em Espanha. Pode-se dizer que Xavi ensinou os adeptos espanhóis a interpretar o jogo de forma diferente. Este legado gigantesco explica a sua importância nos últimos dez anos. Agora Xavi tem 30 anos e começa a sofrer o peso da idade. Doem-lhe as penas, os ligamentos estão inflamados, a fadiga é evidente. Há uns dias pediu ao seleccionador Del Bosque e a Pep Guardiola duas semanas de descanso. Não podia mais. Há que temer o futuro declínio do centrocampista do Barça. Nem a selecção, nem a sua equipa serão as mesmas sem este jogador irrepetível. Espanha sofreu cada vez que não contou com Xavi. Em Buenos Aires foi destroçada pela Argentina. O Barcelona tem Messi, mas nem o jogador argentino pode remediar a ausência do "grande arquitecto". O humilde Maiorca empatou no domingo em Camp Nou [1-1,para a sexta jornada da Liga espanhola]. Apesar de não jogar mal, o Barcelona procurava o "piloto" do seu futebol. Ele não estava. Faltou Xavi e a sua equipa sentiu-se órfã.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Sá Pinto, o Me(n)talista



«...tudo é possível, nós somos o Sporting». Isto arrepia.

Não ganhamos nenhum título com Sá Pinto, ainda, mas inegavelmente a nossa auto-estima está a ser brilhantemente polida. Há uns meses atrás olhávamos para estes jogos com receio do que poderia advir. Agora não. Agora espera-se ansiosamente pela hora do jogo. Dias a pensar no momento em que a mais bela camisola sobe ao relvado envergada por 11 bravos leões. O orgulho de ter no banco um de nós, sabendo que, não sendo somente isso que interessa para a função, dá alento para ir à luta.
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Sá Pinto sabe, como poucos, que tudo no Sporting é escrutinado ao ínfimo pormenor [os adeptos leoninos até nisso são diferentes], mas até para aqueles adeptos que discordam de tudo e de todos, a começar por eles próprios, o momento é de união, de partilha de esforços e de uma feroz vontade de vencer.

Quem viu o nosso treinador,

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Crónica de Santiago Segurola (26.10.2010)

Dias felizes no Bernabéu
Dias felizes para o Real Madrid e Mourinho. A equipa ganha e o treinador beneficia com novas doses de fama, perigo que não o debilitará. Mourinho alimenta-se com o êxito e a popularidade. No sábado, frente ao modesto Racing de Santander, parecia um homem satisfeito, amável e sem nenhum reparo a fazer. Abraçou afectuosamente Özil, Higuaín e Marcelo quando os substituiu na segunda parte e pediu os aplausos dos adeptos para Di María quando abandonou o terreno. E merecia-o, o jogador argentino. Tem menos glamour que outros colegas, mas ganha, de forma admirável, cada euro do seu contrato.
Neste momento, o Real Madrid é um furacão. Marcou 16 golos nos três últimos jogos e derrotou o AC Milan sem nenhum problema. Os mais cépticos dizem que ainda não defrontaram nenhuma equipa de peso na Liga. É verdade, mas há algo no jogo do Real que parece pender para o êxito. Convém referir que o clube tem feito muito para que a equipa disponha de recursos quase ilimitados. Nas duas últimas temporadas gastou quase 400 milhões de euros em contratações, cifra inédita na história do futebol e ainda mais assombrosa nos tempos de crise que percorrem o planeta.
As contratações deste Verão aliviaram os problemas que teve Pellegrini na última época. A chegada de Ricardo Carvalho, que funciona como um relógio, resolveu as dúvidas no eixo da defesa, onde Albiol e Garay não conseguiram estabelecer a sua autoridade. As baixas de Sneijder e Robben, tão criticadas por Pellegrini, foram ocupadas por Özil e Di María. O esquerdino alemão coloca menos intensidade no jogo que Sneijder, mas é mais completo. Já Di Maria é Robben, mas com mais capacidade de sacrifício e menos lesões. Depois das suspeitas iniciais, o público do Bernabéu está rendido ao ex-jogador do Benfica.
As contratações melhoraram consideravelmente o Real. Já ninguém recorda Kaká, que no ano passado foi mais problema que solução e toda a gente concorda que Benzema é um caso perdido. Frente ao Racing, depois dos seis golos, tudo foi entusiasmo e felicidade, mas Benzema passou por outro calvário nos poucos minutos que jogou. O Bernabéu vaiou-o várias vezes, sinónimo do descrédito no avançado francês. A claque não o quer . E Mourinho também nãoparece entusiasmado com o seu ponta-de-lança , que cumpre um papel residual. Joga os últimos minutos... e obrigado.
Nas últimas três semanas, o Real tem jogado com velocidade e vigor, como se supõe em qualquer equipa de Mourinho. Mas também joga com precisão, beleza e grandes recursos técnicos. A defesa é impenetrável, Xabi Alonso demonstra em cada jogo que é um dos melhores médios do mundo e os avançados não perdoam. Se o Barcelona orbita à volta dos seus astutos médios, o Real define-se pelos seus meteóricos avançados: Higuaín, Di Maria e Cristiano Ronaldo, ajudados por um elegante Özil, um falso avançado - ou um falso médio - que introduz a pausa necessária nos momentos adequados.
As coisas funcionam tão bem que Cristiano Ronaldo já compreendeu algumas questões básicas. Por exemplo, é possível ser estrela e participar no plano colectivo da equipa. Começa a perceber que não se pode ser Cristiano Ronaldo todos os minutos em todos os jogos. E isso permite-lhe tomar melhores decisões, colaborar mais e melhor com Higuaín, ser menos previsível e marcar as diferenças. Aí estão os quatro golos que apontou frente ao Racing de Santander
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